Um dia você disse que a solidão me caía como uma luva e que meu olhar ficava ainda mais intenso e bonito quando eu estava carente,  pois bem, acho que a elas te ouviram e decidiram que queriam ser minhas eternas companheiras, durante um tempo foi difícil. Com a solidão até que eu me entendia bem, mas a carência, ah, essa era mais complicada a relação. A solidão me entendia e até que às vezes, realmente me fazia bem, quando estávamos a sós tínhamos boas conversas e horas de reflexão, eu sorria dos meus erros e brindava aos meus acertos, a solidão por muito tempo não foi o meu pior castigo e sim os meus momentos mais felizes e completos de mim mesma. Com a carência, ah, essa temos rusgas até hoje, eu não a entendo e ela não me dá espaço, é quase um relacionamento de posse, ela me tem e não quer me deixar, tem dias em que nem percebo a sua presença, já há outros em que ela se faz notar a cada minuto do meu dia. E assim tem seguido os meus dias, mesclados entre uma solidão amiga e uma carência possessiva. Uma me faz bem e ajuda em meus dias difíceis à outra torna meus dias difíceis. E por falar assim lembrei-me do quanto nossas conversas me faziam bem nesses dias, da sua habilidade em me fazer rir e me distrair dos meus próprios abismos, em seu abraço tudo se tornava distante e o seu cheiro me dava à sensação de aconchego e tranquilidade, eu sinto falta da nossa amizade e de como nos dávamos bem, sinto falta de você, sinto falta de mim, sinto por que sei que esses dias não vão voltar e que nada será como antes, sinto, pois sei que nossa amizade apesar de forte tornou-se distante, sinto porque sei que você passa pelo mesmo que eu e mesmo assim não podemos nos ajudar. Sinto por nós, pelo que éramos e pelo que nos tornamos. Enfim, sinto falta de nós. E é nesses dias que a solidão me conforta e a carência me sufoca.