O meu corpo tornou-se sensível ao teu de tal modo que só de ouvir o teu nome desejo. Tornei-me prisioneira das tuas mãos, moradora do abrigo que há em teus braços. Faminta da carne dos teus lábios e sedenta pelo gosto da tua saliva. Ah, se tu soubesses como sou tua, não teimava em cobrar o que já é teu. Seriamos apenas a morada,o abrigo e a liberdade um do outro. 





    Eu te quis. Por um momento eu realmente te quis. Não pense que não demos certo por falta de querer. Acontece que a vida não é feita de impulsos, vontades passageiras e gostares instantâneos. É preciso muito mais que isso, é preciso tempo, pele, dar vazão ao desejo e ver até onde vai. Mas não tivemos isso. Fomos como aquelas velas de aniversário que queimam uma, duas vezes e mesmo insistindo em acender, sua chama dura pouco tempo. Nosso momento passou, nos perdemos e não fizemos mapas. Perdemos todos as rotas possíveis e só nos resta seguir, cada um o seu caminho, conhecendo e aprendendo com esses novos destinos. Aprendendo a gostar de outras pessoas, de outras formas e com outras intensidades. Seguimos, porque é esse o ritmo natural da vida.


    Era uma manhã fria de inverno, eu ainda nem tinha acordado direito, mas você já estava lá, linda com aqueles olhos intensos e o lábio pintado num vermelho indecente. Indecente foi o que pensei que poderia fazer com aqueles lábios. Seu jeito doce sempre me cativou, mas o que me conquistou foi a tua safadeza oculta no sorriso e bochechas vermelhas quando recebe elogio. Safadeza que se revelou pra mim como uma feliz surpresa, que me fez cair de amores pela menina tímida de corpo quente e gemido marcante. Quando depois do sexo você repousa em meu peito e me embriaga com teu cheiro, peço aos deuses apenas mais um tempo pra ter você ao meu lado. Pra merecer essa menina gentil de cabelo bagunçado que arrumou minha vida.




    No espelho vejo refletida a minha bagunça. Sorrio ironicamente, lembrando-me das palavras da minha mãe: “Uma moça não dever ser bagunceira, nem bagunçada”. Sinto informa-lhe mãe, sou uma bagunça. Estou uma bagunça. Porém, vou lá, arrumo o cabelo, faço uma maquiagem, visto uma roupa confortável e adequada. Quem me vê, até pensa que sou a organização em pessoa. Está ai, a organização desejada por fora, mas, por dentro sou a bagunça que fica depois da passagem de um furacão, daqueles que não deixam, nada no lugar, carros, placas e casas, desses que faz os mares se agitarem e arrancam as árvores do seu lugar. Quem me olha, vê apenas uma leve brisa, a calmaria do meu sorriso, mas, para quem olha além, até consegue ver a profundidade no meu olhar. 





    A chuva cai lá fora batendo no vidro da minha janela, marcando com suas gotas o vidro embaçado. Aqui dentro só o calor do meu cobertor e da xícara de café me aquece. A música que toca no meu celular me convida a dançar acompanhada da leitura do meu bom e velho livro que há tempos tento finalizar a leitura. Ajeito-me em minha cama, envolta do cobertor com os óculos de leitura e o café ao meu lado mergulho em um mundo belo e distante. O mundo em que por hora é onde quero estar, longe de tudo, até mesmo dos meus pensamentos que insistem em te buscar sei lá aonde e te trazer para perto de mim, como um fantasma perdido no tempo, vagando e arrastando suas correntes pra me fazer lembrar o quanto ainda é presente em minha vida. Mais uma pagina lida, ou foi um capitulo? Não lembro mais, não vejo as horas passarem, apenas sinto, divago sozinha em meus pensamentos pela noite fria e solitária que me lembra de você.



    Lembra-se de quando me pediu pra ficar?
    Lembra-se de quantas vezes eu disse não e que não daria mais certo?
    Lembro-me de quantas vezes me perdi e me encontrei nos seus braços.
    Agora me pego recordando de tudo o que vivemos, e vejo que essas são apenas pequenas partes de nossa história, que parece renascer das cinzas, como uma Fênix sempre a cumprir seu destino, aceitando a morte necessária para poder insistir na vida, nascendo renovada, sempre com uma nova roupagem, com um novo brilho no olhar e uma força renovada nas asas, tomando um novo fôlego pra se lançar em um voo, sobre esse abismo que sempre nos lançamos de olhos fechados, de peito aberto, sem olhar pra trás. Você tem suas teorias para explicar porque sempre damos certo, quando achamos que não daria mais. Eu ainda acho que somos masoquistas. O fato é que estamos sempre nos encontrando pelos diferentes caminhos da vida, somos como ímãs sempre nos atraindo um para o outro. Mudamos a cada briga, a cada carinho a cada conversa. Retomamos de onde paramos, às vezes avançamos mil anos, mas sempre nos encontramos. E voltamos às perguntas, as assertivas e negativas. Eu sempre dizendo que não dará certo e você me prendendo por mais um ciclo em seu feitiço.


    O tempo passa rápido e quando você vê já não está mais ganhando presentes do Dia das Crianças e sim comprando-os para presentear sobrinhos, filhos de amigos ou até os seus próprios filhos. Não temos a certeza de quão rápido nos tornamos adultos, responsáveis, alguns nem tanto. Mas, já estamos olhando com nostalgia para o tempo em que fomos mais felizes, onde ainda carregávamos a pureza do amor sincero e verdadeiro e a inocência do olhar puro. Não sei ao certo porque temos esse feriado, mas de certo que hoje comemoramos aquilo que queremos de volta, comemoramos nossos dias mais puros e perfeitos, comemoramos e presentamos nossas crianças, porque queríamos nós mesmos estar recebendo presente ou mesmo um abraço e um colo de mãe, o direito a um dia inteiro com seu pai, fazendo aquilo que você escolheu fazer, porque hoje é o seu dia. Queremos apenas repousar no sofá e assistir desenho animado um dia inteiro, enrolado naquele velho cobertor, o melhor cobertor do mundo. Comemoramos esse dia porque os nossos dias já pesam demais em nossos ombros. Comemoramos porque, por mais velho que se esteja jamais deixamos de ser, ter e sentirmo-nos como eternas crianças. Às vezes somos ingênuos, às vezes amamos incondicionalmente, mas na maioria das vezes nos sentimos perdidos, desejando apenas, poder correr para o colo de nossos pais e ficar ali, protegido do mundo. Por isso comemoramos esse dia, comemoramos nossas lembranças, desejos e sonhos. Festejamos a nós mesmos.